Personal

Bob Ross no sabía de huevos podridos

Hoy hace un año estaba preparando mi almuerzo en la cocina de una hermosa casa en Alto de Pinheiros, donde vivía con aquella mujer que mencioné en mi recuento de fin de año. Ese día pasó algo, sobre lo que escribí unos meses después cuando conseguí mudarme. Nunca lo voy a olvidar.

Si los viajes lo cambian a uno, creo que yo tengo que darle gran crédito a esa mujer por ayudarme en el mío durante los primeros meses. Me endureció la piel y me enseñó lo peligrosa que puede ser la paciencia en exceso.

Celebrando que esta semana retomo mi estudio de portugués, porque un año de clases en la universidad aquí en São Paulo no me pareció suficiente para pulir la práctica de los diversos tonos informales que tiene esta lengua, comparto la crónica que escribí hace meses pero no había publicado sobre mi experiencia ese día en la cocina de la señora S.

Aún no la he corregido, así que va sin la suavizada que da el tiempo ni la complejidad que da el aumento de vocabulario. Ilustrando, una foto de la cocina que saqué de la página de airbnb donde encontré (muy a pesar mío) la casa maravillosa de una mujer terrible.

La cocina

Em São Paulo morei por seis meses na casa da Senhora S, uma mulher de 64 anos com energia e modo de vida de uma pessoa de 30. Casada e com filhos que mora sozinha porque é tremendamente independente. Nunca conheci ninguém como ela e ainda assim reconheço muitas características na sua personalidade que são iguais ou muito parecidas ás de outras pessoas que já conheci, incluindo a mim mesma. É então, uma pessoa estranha que me resulta curiosamente familiar.

É por isso que já conheço muitas de suas reações e compreendo muitas das suas regras. Porque sua vida esta completamente baseada nelas: jeitos que tem para cada coisa, todos baseados numa lógica muito racional e até muito prática embora de controladora. A casa toda funciona com essas pequenas e precisas regras, desde os sapatos que sempre ficam na entrada e não podem entrar á casa até o minuto que a gente tem que esperar para abrir de novo a geladeira se acabou de fechá-la. São regras simples, mas são muitas. E claro, a reação dela não é precisamente de paciência quando alguém não consegue conviver com todas ou pula alguma. Sem gritos ou palavras feias, só com gestos de ansiedade irritada, ela explica mais uma vez como a coisa deve funcionar. Nem é necessário dizer que é uma odisseia procurar uma moça que consiga passar direito todos os níveis desse jogo ou ficar mais de dois meses.

O conjunto de jeitinhos e regras dela é como uma complexa máquina perfeiçoada com a experiência, os erros e o tempo. Para viver com ela é preciso aprender as partes dessa máquina, conhecer todos os detalhes hipoteticamente úteis. Mas o mais importante é tentar compreender a lógica com que foi criada a máquina, para poder lidar com ela corretamente quando a Senhora S não esteja. Isso foi o que aprendi o outro dia, que vou contar nesta memoria.

Era sábado ás doce e pouco, desci á cozinha para fazer um almoço simples. A cozinha é o lugar mais delicado para a máquina. Há muitas peças frágeis e muitos erros possíveis. Há panos para cada coisa, três tipos de sabão diferentes e um uso específico das panelas, as facas de cozinha, os talheres, etc. etc. Lembro bem o que tem que ver com o uso básico da cozinha, ao final só tinha que deixar tudo no mesmo estado em que estava antes: normalmente limpíssimo e organizado. Mas a máquina é chata na parte da cozinha, então sempre tento não fazer mais bagunça da estritamente necessária.

Tirei meus ovos da geladeira para fazer uma omelete. Sobre o balcão de madeira, perto –mas não suficiente- da pia, quebrei um ovo. O mais bem: tentei quebra-lo, mas ele explodiu pelo gás e o conteúdo estragado deixando tudo ao redor espirrado. Nunca antes disso tinha experimentado o cheiro de enxofre horroroso do ovo podre. E justo foi na casa da Senhora S quando ela estava ausente. As instruções da “máquina dos jeitos” nesse momento mudaram automaticamente para chinês. Não tinha ideia sobre o procedimento de limpeza nessa situação.

Tive que sair com cuidado da cozinha, tomar um banho rápido e incômodo, trocar de roupa e tomar uma toalha de mãos própria para limpar o piso e as paredes com o sabão da pia. Porque não conhecia as regras para uma situação assim. Nem sentia vontade de tomar tempo para procurar na internet, coisa que para tudo eu faço. Limpei durante 3 horas, não fiz almoço nem comi coisa nenhuma e ao final da tarde eu sentia ainda pior o cheiro na cozinha. Quando a Senhora S chegou, cansada e já irritada por outro assunto, foi bem incómodo. Pelo menos só usei uma toalha própria e o sabão que eu mesma também forneço para lavar a louça, então não quebrei peças da máquina.

Só depois de que a menina que ajuda com a limpeza da casa chegou de emergência no dia seguinte e eu consegui tomar banho até só cheirar sabão, fiquei tranquila. Mas é uma coisa que não vou esquecer nunca, essa sensação de não saber como atuar para enfrentar um problema prático que precisa solução de forma imediata. A ansiedade que cresce, o sabão e a agua que correm e o cheiro de podre que fica como se fosse bruxaria.

O Bob Ross de The joy of painting, que eu curtia tanto quando menina, disse alguma vez “There’s no mistakes, only happy accidents”. Eu acreditei nele e suas frases felizes até que tive que morar com a Senhora S.

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